GLAUCOMA

O glaucoma não é uma doença única, mas sim um grupo de doenças que danificam o nervo óptico, que é o "fio" que liga a retina (o filme que capta a luz) ao cérebro (onde a visão é realmente formada). O glaucoma possui um conjunto de alterações específicas do nervo, que surgem por diversas causas e a sua maioria têm em comum o aumento da pressão do olho (pressão intraocular, ou PIO). 


É uma das principais causas de perda permanente de visão no mundo, mas, se diagnosticado precocemente e tratado, a maioria das pessoas mantém uma visão funcional por toda a vida.


​ O glaucoma é comum?

​ O glaucoma se torna mais comum com o avanço da idade. Ao redor do mundo, afeta cerca de 1 em cada 30 adultos entre 40 e 80 anos. Espera-se que esse número suba à medida que a população envelhece. Nosso país infelizmente apresenta poucos estudos da epidemiologia do glaucoma se comparado a países desenvolvidos. Sabe-se que no Brasil ~3,4% das pessoas acima de 40 anos têm o diagnóstico da doença, porém esse número provavelmente representa um sub-diagnóstico.

Assim, é importante manter exame oftalmológico de rotina para a detecção precoce da doença, especialmente se o paciente apresentar os principais fatores de risco:


  • ​ Idade superior a 40 anos (o risco aumenta progressivamente com a idade)
  • ​ Histórico familiar de glaucoma
  • ​ Pressão intraocular elevada (>21mmHg)
  • ​ Miopia (especialmente acima de 3 graus)
  • ​Certas condições médicas, como diabetes ou usorolongado de corticosteróides
  • ​Córneas finas
  • Histórico trauma ocular ou outras doenças oculares

​ O que causa o glaucoma?

​ A maioria dos casos de glaucoma está ligada ao aumento da pressão no interior do olho. O olho produz continuamente um líquido transparente chamado humor aquoso, que é drenado principalmente por meio de um tecido poroso conhecido como malha trabecular. No tipo mais comum, o glaucoma de ângulo aberto, esse sistema de drenagem torna-se menos eficiente com o tempo, fazendo com que a pressão suba lentamente. Essa pressão, combinada a outros fatores, como a redução do fluxo sanguíneo para o nervo óptico e alterações decorrentes do envelhecimento no próprio tecido nervoso, danifica gradualmente as delicadas fibras nervosas que transportam os estímulos visuais ao cérebro.


​ É importante ressaltar que a lesão do glaucoma costuma ocorrer de forma silenciosa. Em estágio inicial, a doença não apresenta sintomas — seja dor ou visão turva perceptível — pois afeta primeiro a visão lateral (periférica), algo que raramente é percebido até que um dano significativo já tenha ocorrido. 

Já um tipo menos comum, o glaucoma de ângulo fechado, ocorre quando a íris bloqueia fisicamente o canal de drenagem. Isso pode provocar um aumento súbito e doloroso de pressão ocular (em geral acima 35-40 mmHg, o chamado glaucoma agudo). Isso resulta em piora rápida da visão, bem como vermelhidão ocular, dor de cabeça e náuseas. Quadros mais leves (chamados de subclínicos) podem se apresentar somente com leve dor de cabeça e piora leve da visão (muitas vezes com halos ao redor de luzes). O quadro de glaucoma agudo é uma emergência oftalmológica e o paciente precisa procurar pronto-atendimento imediatamente.

​ O glaucoma pode ser curado?

​ Infelizmente não. Qualquer visão perdida pelo glaucoma é permanente, pois as fibras do nervo óptico danificadas não se regeneram. Mas o tratamento adequado pode retardar ou interromper a progressão do dano, razão pela qual a detecção precoce em exames de rotina é tão crucial, principalmente para maiores de 40 anos ou pessoas com os fatores de risco mencionados.

E como o glaucoma é tratado?

A única forma comprovada de desacelerar a doença é a redução da pressão intraocular, que pode ser atingida usando-se colírios, laser ou cirurgias. O tratamento não restaura a visão já perdida, mas protege a visão restante.

Colírios: o passo inicial mais comum. Diferentes tipos de colírios estão disponíveis atualmente e a escolha de qual se utilizar depende de uma avaliação oftalmológica cuidadosa, atentando-se também para custos e possíveis efeitos colaterais. Os colírios atuam reduzindo a produção de líquido no olho ou facilitando sua drenagem. Os colírios devem ser usados de forma regular, diariamente, exatamente como prescritos, para que façam efeito — esquecer as doses é uma das causas mais frequentes de falha no tratamento. O uso de colírio pode ser uma tarefa difícil, assim a orientação correta do uso é um passo importante de uma consulta com seu oftalmologista. Clique aqui para saber mais como aplicar colírio de forma correta.

Laser em Glaucoma: A trabeculoplastia a laser (SLT) é um procedimento rápido realizado em ambiente ambulatorial (igual a um consultório) que visa melhorar a drenagem do líquido intraocular pela malha trabecular. Pode ser utilizado como terapia inicial ou complementar se os colírios forem insuficientes. É indicado para glaucomas de ângulo aberto leves ou moderados. Não possui efeito duradouro mas pode ser reaplicado. A sua correta indicação e realização depende de uma consulta detalhada. Já a iridotomia é realizada para casos em que há risco de fechamento angular, ou seja, que a malha trabecular seja “entupida” pela íris (parte colorida do olho). Esse fechamento ocorre principalmente por alterações anatômicas próprias do paciente e que podem piorar com a idade. O laser visa criar uma passagem alternativa do líquido do olho, para que não seja represado atrás da íris. A iridotomia é realizada para se evitar principalmente o glaucoma agudo, porém pode ter efeito também no glaucoma crônico de ângulo fechado. Assim como o SLT, a iridotomia é realizada ambulatorialmente e somente uma consulta especializada pode dizer se ela deve ser feita ou não.

​Cirurgia: os procedimentos mais tradicionais, como a trabeculectomia e implante de tubo de drenagem são reservados para casos mais avançados e que o tratamento com colírios não controlaram a doença. São cirurgias invasivas, que requerem acompanhamento e cuidados pós-operatórios intensos. Atualmente, há também as cirurgias minimamente invasivas de glaucoma (MIGS), como o implante do iStent (foto abaixo). Trata-se de uma minúscula prótese metálica (um pouco maior que um grão de areia grossa), que é inserida na malha trabecular, facilitando a drenagem do líquido intraocular. É mais frequentemente realizada em conjunto com a cirurgia de catarata.

​ A maioria dos pacientes é tratada com sucesso apenas com colírios e/ou laser, mas visitas regulares de acompanhamento são essenciais para verificar a pressão intraocular e monitorar o nervo óptico e o campo visual ao longo do tempo, visto que os planos terapêuticos costumam ser ajustados conforme a doença possa evoluir.


Em resumo

​ O glaucoma geralmente não manifesta sintomas iniciais — consultas oftalmológicas de rotina são a única forma de detectá-lo antes que ocorra a perda da visão. ​A pressão intraocular elevada não é sinônimo de glaucoma, mas sim o principal fator risco para desenvolvimento da doença. Mesmo indivíduos com pressão ocular normal podem desenvolver a doença. Apesar da visão eventualmente perdida pelo glaucoma não ser recuperada, o tratamento adequado ajuda a preservar a visão restante. Somente o controle rigoroso da pressão ocular, seja com uso de colírios, laser ou cirurgia, leva a esse controle. Assim, os pacientes devem manter o tratamento e seguimento com seu oftalmologista de forma contínua e cuidadosa.

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